“Querubins sob meus olhos”: crianças fotografam o dia a dia

Por Davi de Jesus e Vitória Figueiredo

Alunos fotografam cotidiano da Associação Querubins
Foto: Querubins sob os meus olhos

Em suas tardes, João Miguel Ariza, de 8 anos, participa de oficinas artísticas e educativas em uma Associação em que estuda. As oficinas estão localizadas em diferentes locais da Associação e, durante as atividades, João Miguel e os colegas exploram esses espaços. “Eu faço essas atividades em várias salas. A oca, a sala que a gente lancha, a sala de música… a gente estuda nesses lugares. Tem também a sala de inglês e uma sala cheia de brinquedos.”, conta João. 

Os espaços fazem parte da Associação Querubins, uma Organização da Sociedade Civil (OSC), isto é, uma entidade que promove atividades de cunho social. Localizada no Bairro Sion, em Belo Horizonte, a Querubins desenvolve atividades artísticas, esportivas e pedagógicas com alunos entre cinco e dezesseis anos, por meio de oficinas. 

Durante as oficinas, João Miguel e os demais colegas da Associação frequentam e interagem com diferentes ambientes dentro da entidade. Essa ligação entre as crianças e os espaços gera a construção de um conhecimento. A relação com as ferramentas tecnológicas também é uma realidade que as crianças e adolescentes vivenciam, ainda que com  a falta de apoio psicológico para esse uso.  Apesar de 83% deles terem contas em redes sociais, para 90% das pessoas, os jovens não recebem auxílio emocional suficiente para lidar com o ambiente digital, segundo dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024. 

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Além da relação com os espaços e do contato com as tecnologias, a visão de si mesmos sobre o mundo e a autoimagem não apenas permeiam os jovens, mas são explorados pela fotografia. Essa arte desenvolve habilidades como atenção ao ambiente e aos detalhes, autoestima e criatividade.  A prática da fotografia, contudo, ainda não é rotina nas aulas de crianças e jovens brasileiros, mesmo determinada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). 

Essas questões relacionadas à tecnologia, arte, espaço e visão de mundo são trabalhadas em uma iniciativa  de fotografia. O projeto “Querubins sob os meus olhos” é produzido na Associação Querubins, uma organização da sociedade civil (OSC). A iniciativa estimula os alunos da associação a fotografarem o espaço, as pessoas e o que cada criança considera relevante dentro dos limites geográficos da entidade.

Fotografias dos alunos refletem espaços que frequentam na Associação – Foto: Querubins sob os meus olhos

A partir do projeto, a fotografia passou a fazer parte do cotidiano de João Miguel e dos demais alunos da Associação. Se durante as aulas os estudantes já exploram o espaço, o projeto fez com que enxergassem  lugares que frequentam todos os dias com um novo olhar: o fotográfico.

No projeto, cada estudante recebia uma câmera fotográfica digital  por um período e, nesse tempo, podia fotografar a Associação: os locais, os colegas, professores, monitores, natureza, objetos. Os alunos receberam informações básicas sobre o funcionamento da câmera e a forma de tirar as fotos. Mas não participaram de aulas específicas nem tiveram orientações sobre técnicas de fotografia.

“Não quisemos passar para elas um curso de fotografia, já que o objetivo era fotografarem a partir da orientação básica sobre como usar a câmera”, comenta Fernando André, idealizador do projeto, que trabalha no setor administrativo da Associação. 

Aulas e dia-a-dia foram registrados pelos alunos com a câmera 
Foto: Querubins sob os meus olhos

“Eu queria  dar liberdade para elas registrarem o que acham relevante no dia-a-dia, o que enxergam dentro do Querubins”, explica Fernando. “Outro objetivo era integrar a tecnologia no dia-a-dia das crianças, captar a visão delas sobre o espaço e sobre o que é a Associação para elas”. 

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Olhar

Com as fotos, as crianças podem mostrar como veem o mundo, os outros e até a si mesmas. O vídeo a seguir mostra registros fotográficos e de vídeo da rotina na Associação, pelo olhar e as lentes dos alunos. 

O olhar sobre os espaços e sobre o mundo esteve presente nas fotos tiradas por João Miguel Ariza, aluno citado no início da reportagem. Ele enumera os cliques que fez. “[Tirar as fotos] foi bem legal. Eu gostei. Tirei fotos da natureza, das flores perto da sala de inglês, de uma árvore, do céu, dos meus colegas… E também da aula de educação ambiental, que tinha pássaros. Aí falava dos pássaros. Tinha pássaro do cerrado e da Amazônia. E também aprendi com o projeto”, conta. 

Fotos do aluno João Miguel Ariza
Créditos: João Miguel Ariza / Querubins sob os meus olhos
Arte: Vitória Figueiredo

Com a iniciativa,  foi possível constatar esse olhar próprio das crianças sobre o mundo ao redor, como explica Fernando. “A criança consegue enxergar e nos mostrar coisas para as quais, às vezes, preferimos nem prestar atenção. O projeto contribuiu para que elas tivessem esse olhar, e também serviu muito para a gente [adultos, voluntários, colaboradores] enxergar da perspectiva delas, sem rótulos nem julgamentos”, pondera. 

Para a psicóloga Fernanda Rodrigues, ver o mundo pela perspectiva das crianças, por meio da fotografia, é benéfico. “Ações como essa permitem compreender como as crianças e adolescentes estão significando a própria realidade, quais são os processos subjetivos por trás dessa ação [de fotografar]”, explica.  “Muitas vezes, a visão das crianças é deixada de lado, diminuída e desqualificada. Por outro lado, permitir que as crianças fotografem dá protagonismo à forma delas enxergarem o mundo.”

Essa visão de mundo está presente nas fotos tiradas por outra aluna do projeto: a estudante Laura França, de oito anos. Filha de Fernando, o idealizador do projeto, Laura fotografou o dia-a-dia na Associação. “Eu tirei foto de algumas pinturas, dos meus colegas, da hora do lanche”, conta.  “Foi legal, foi bem diferente. Eu nunca tinha usado uma câmera daquelas”.

Fotos da aluna Laura França 
Créditos: Laura França / Querubins sob os meus olhos
Arte: Vitória Figueiredo

Socialização 

Além do estímulo ao olhar, a socialização e o convívio com outras crianças, professores e monitores também fizeram parte do projeto de fotografia. “A Laura pôde desenvolver a parte social, pois tirou fotos dos colegas, e também de alunos que não eram da turma dela.”, relata Lúcia França, mãe da aluna Laura e funcionária da Associação.  Ela sinaliza o desenvolvimento de habilidades pela filha a partir do projeto: “a Laura é um pouco tímida, então, abordar as pessoas e pedir para tirar fotos pode ter sido difícil”. 

Fernando André, idealizador do projeto, percebeu que as crianças gostavam desse convívio entre si: elas tiravam fotos juntas, interagiam e chamavam os professores e monitores para fotografarem eles. “Eles nos paravam e pediam para tirar fotos nossas”, conta. 

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Dentre os monitores e monitoras que saíram nas fotos dos alunos, está Vanessa de Paula. Ela acompanhou as vivências dos alunos com as fotografias. “Alguns gostam de fotografar pessoas, outros, a natureza, outros, coisas aleatórias. Alguns filmaram algumas oficinas. Acompanhei mais de perto e pude ver que estavam bem empolgados com o projeto”, relata. 

Espontaneidade

Com o “Querubins sob os meus olhos”, os estudantes circulavam pela Associação com a câmera em mãos, e momentos do cotidiano eram capturados pela máquina fotográfica. Vídeos também eram gravados pelos estudantes. Para o idealizador do projeto, a metodologia desenvolveu a espontaneidade das crianças, que transparecia nas fotos que tiravam. 

Estudantes durante aula na oficina de percussão 
Foto: Querubins sob os meus olhos

Em fotos do dia-a-dia, por vezes, essa espontaneidade não aflora, na opinião do criador do projeto. “Quando fazemos uma foto, muitas vezes, ela é posada. Quem fotografa para e faz aquele registro, e as pessoas fotografadas  param e fazem uma pose [dessa forma, a foto não captura a espontaneidade das pessoas ou do momento].”

Para Fernando, porém, quando as crianças fotografam, a situação é diferente. “A criança vai fotografar a brincadeira no dia-a-dia, a bola no ar, os registros da felicidade… os colegas felizes, a natureza, os animais, as flores”, conta, citando objetos e momentos fotografados pelos alunos no projeto. 

Os alunos mais novos, entre seis e oito anos, foram os mais entusiasmados com o projeto. Além disso, são espontâneos, como conta Fernando, e essa característica refletiu nas fotos que foram tiradas. A espontaneidade, que marcou o ato de fotografar das crianças, é também uma característica que muitas delas já possuíam. 

Paisagens também atraíram o olhar dos alunos para as fotos
Foto: Querubins sob os meus olhos

“O fato de serem espontâneas e não terem constrangimentos de falar sobre nada reflete nas fotos. Se eles querem mostrar uma coisa, não ficam pensando: ‘faz essa pose, fica desse jeito’. Eles  vão lá, tiram a foto e pronto.”, reflete Fernando. O contato de crianças com a fotografia não se limita, porém, à espontaneidade. 

Além da espontaneidade, o contato com a fotografia é benéfico para o desenvolvimento de crianças e adolescentes por outras razões. Se reconhecer em si mesmo, no outro e no espaço são algumas das vantagens dessa ferramenta para os jovens, segundo a psicóloga e estudante de Pedagogia Fernanda Rodrigues. O infográfico a seguir mostra outras consequências da fotografia para essa faixa etária, além de mais fotos registradas pelos estudantes.

Fotografia desenvolve habilidades em crianças e adolescentes –
Informações: Psicóloga Fernanda Rodrigues – Infográfico: Vitória Figueiredo Foto: Querubins sob os meus olhos

As fotografias refletiam aquilo que os alunos viam no dia-a-dia: além de mostrar os monitores, as fotografias também capturaram  a relação das crianças com os lugares. Alguns deles, como a quadra coberta, a oficina de percussão, a fonte e as áreas verdes, foram muito fotografados pelos estudantes. 

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Vínculo

Para a psicóloga Fernanda, a presença recorrente de determinados locais e pessoas nas fotos dos alunos tem significado. “Tudo que produzimos é carregado de afeto. Então, essas repetições podem vir de vínculos de carinho que os alunos têm com as pessoas e os espaços. No cotidiano das crianças, essas pessoas têm uma importância simbólica.”, explica. “Já os lugares [que se repetem nas fotos] podem ser espaços em que elas  sentem maior pertencimento” (ou seja, mais acolhidas, se sentem bem). 

Mídias

Além da relação com o espaço, a fotografia também pode produzir habilidades midiáticas nos jovens. No contexto dos adolescentes, a BNCC define que o contato com a fotografia na trajetória escolar deve levar os alunos a experiências que ampliem os conhecimentos midiáticos. Essas experiências envolveriam reportagem, edição, fotoreportagem, comentários, curadoria de conteúdos, entre outros. (DA MATTAS et al., 2023)

Fotografia pode gerar habilidades com mídia – Imagem capturada por alunos durante jogo de futebol mostra uma bola no ar – Crédito: Querubins sob os meus olhos



O desenvolvimento de habilidades midiáticas a partir da fotografia é uma ideia em desenvolvimento com os estudantes, a partir das fotos que tiraram  no projeto. A ideia é que eles usem essas fotos que produziram para atividades nas aulas de artes digitais, como formatar publicações, por exemplo”, explica Fernando André. Além do uso das habilidades digitais e de mídia, projetos de fotografia também podem ter um papel de educação midiática, capacitando os estudantes a lidarem, de forma crítica, com as mídias. 

Desafios

Mesmo com os benefícios do contato com a fotografia, o projeto passou por desafios, como a quebra da câmera, que aconteceu durante o manuseio das crianças, de acordo com o idealizador, Fernando André. O incidente levou à interrupção das fotografias. Outra câmera já está disponível para uso, e a previsão é que o projeto seja retomado em breve. 

Natureza esteve presente nas fotos tiradas pelos estudantes 
Crédito: Querubins sob os meus olhos

O comportamento dos alunos foi outro desafio. Embora a maioria tenha apresentado boa conduta e respeito às regras durante o projeto, alguns tiveram dificuldades em seguir os combinados que norteavam as atividades, e que incluíam não fotografar sem autorização dos professores ou monitores e não impactar as aulas ou a rotina, por exemplo. 

“É importante o aluno saber que deve respeitar os combinados, mas que tem autonomia e liberdade para circular pelo Querubins.”, ressalta Fernando André.  “Porém, ele não podia fazer tudo o que quisesse. Tinha que seguir os trâmites, respeitar quem era autoridade. Se a professora falasse que não era o momento de fotografar, tinha que guardar a câmera. Foram poucos os episódios em que eles tiveram que ser advertidos por algo.”, relata. 

A maior dificuldade se deu em relação ao projeto ser experimental, realizado pela primeira vez. “Nós não saberíamos lidar com as situações até que elas acontecessem. Não estávamos preparados para ficar sem a câmera, por exemplo”, comenta Fernando André. A pouca coleta de dados sobre as consequências da iniciativa, também devido a ser um projeto experimental, foi outra questão relacionada à atividade.

Pertencimento

Apesar dos desafios, a recepção dos alunos ao projeto foi positiva. “A iniciativa contribuiu para a forma das crianças enxergarem a si mesmas e a verem a beleza em si. E as fotos que tiraram eternizaram os momentos”, relata Fernando. 

Alunos e coordenadora pedagógica do projeto, Mércia Correa
Foto: Querubins sob os meus olhos

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