O desafio da dupla jornada para a mulher brasileira
Por Ana Luiza Guastaferro, Isabella Ferreira e Vitória Figueiredo

Imagem: 50emais
Apesar de conquistarem cada vez mais espaços no mundo profissional, as mulheres ainda são reféns dos afazeres e responsabilidades da vida doméstica. A elas são delegados os desafios e a sobrecarga do trabalho dentro e fora de casa. E, com isso, mantêm-se os obstáculos para sua progressão na carreira.
De acordo com o levantamento realizado em março de 2025, pelo Serasa, atualmente, no Brasil, 93% das mulheres participam financeiramente das despesas familiares. Em 33% dos lares, elas são as únicas responsáveis pela geração de renda, ou seja, são as provedoras da família. Noventa por cento delas sinalizaram a necessidade de equilibrar o desafio profissional com as responsabilidades domésticas, o que é chamado de economia do cuidado – um trabalho invisível, mas exaustivo, que envolve desde a organização da casa e das compras diárias até o cuidado com filhos e familiares.
A especialista em gestão do Serasa, Rafaella Fajardo, destaca que “essa jornada dupla é extremamente cansativa e demanda uma carga horária adicional que, muitas vezes, impacta a produtividade das mulheres, dificultando o crescimento na carreira e a conquista de méritos ou promoções, por exemplo”.

Foto: Arquivo Pessoal
Vida real
A dupla jornada é enfrentada por muitas mulheres, como Elisangela De Moura, de 31 anos, que precisa lidar com o trabalho fora de casa e as responsabilidades domésticas: “Eu trabalho como copeira na Fumec, pego às seis horas da manhã e chego às dezessete horas em casa”, ressalta. Ao retornar para seu lar, já se dedica ao filho mais novo e o ajuda com os deveres escolares. Logo depois, inicia as tarefas domésticas, como preparar a janta e organizar a casa: “Começo a fazer as tarefas de casa tarde, ajeito a casa, a janta, esse processo assim”, conclui. Elisangela salienta que enfrenta uma sobrecarga, mesmo dividindo as tarefas com seu esposo e filho mais velho, o peso das obrigações domésticas recai majoritariamente sobre ela.
Desvalorização
A pesquisa do Serasa reforça que essa sobrecarga enfrentada pelas mulheres se soma à desvalorização do trabalho dentro da própria casa. Conforme o estudo, 66% delas afirmam que não são reconhecidas por sustentarem seus lares. “O machismo estrutural faz o trabalho da mulher ser visto como complementar, mesmo quando essencial para a sobrevivência familiar”, explica a socióloga Ana Carolina Maciel, que, em sua pós-graduação, investigou os desafios enfrentados por mães adolescentes de baixa renda de Belo Horizonte para se inserirem no mercado de trabalho.
Foto: Arquivo pessoal
Disparidade salarial
Além de gerarem sustento econômico sozinhas, as mulheres enfrentam, também, o fato de ganharem, em média, 20,7% a menos do que homens que exercem a mesma função. Os dados são do Ministério do Trabalho, de setembro de 2024. Para a socióloga, o trabalho das mulheres, historicamente, é considerado de menor valor do que o exercido por homens. Há dificuldades enfrentadas, também, dentro do próprio mercado de trabalho.
“Mulheres são frequentemente segregadas em funções de menor remuneração e enfrentam barreiras para ascender a cargos de liderança”, afirma. Mesmo com os desafios, Ana Maciel acredita que a participação das mulheres no mercado de trabalho é uma conquista, mas que precisa “ser acompanhada por mudanças estruturais que garantam equidade e suporte adequado”.