Tamara Marques: “Acolher corpos, a naturalidade deixa a gente mais à vontade”

Por João Pedro Bretas, Jonnathan Anthony, Maria Julia Coelho Vieira e Milena Andrade

A psiquiatra  e psicoterapeuta Tamara Marques destaca
o impacto dos padrões de beleza na saúde mental
Créditos da imagem: arquivo pessoal

Muitas vezes, os indivíduos que desenvolvem transtornos alimentares, como compulsão alimentar, anorexia e bulimia, são influenciados por ideais de beleza inatingíveis, propagados pela mídia e sociedade em geral. A pressão para se enquadrar nesses padrões pode levar a uma autoimagem distorcida. Uma das consequências da busca pela “perfeição” estética são os comportamentos alimentares prejudiciais. 

O Conecta conversou sobre o assunto com a médica psiquiatra e psicoterapeuta Tamara Marques Kenski, formada na Faculdade de Medicina de Juiz de Fora. A profissional cita  movimentos como o “Body Positive” (que luta contra a disciminação de corpos considerados ‘fora do padrão’.) e explica sobre a influência desse movimento nas gerações X (nascidos entre 1965 e 1981) e Y (nascidos entre 1982 e 1994).

A médica enfatiza a importância de desafiar os padrões de beleza impostos pela sociedade com o objetivo de promover uma relação mais saudável com a alimentação e a imagem corporal, contribuindo para a prevenção e tratamento dos transtornos alimentares. Segundo ela, não é incomum que indivíduos depressivos e ansiosos desenvolvam transtornos alimentares. Em relação ao tratamento, pode-se buscar ajuda por meio de terapia cognitivo-comportamental, auxiliada por intervenções farmacológicas.  

Leia a seguir entrevista sobre o assunto com Tamara Marques.

Conecta: Em sua experiência clínica, como a busca pelos padrões de beleza promovidos na internet afeta a autoestima dos indivíduos?

Tamara Marques : O excesso de “perfeição” é uma influência negativa. Pense comigo: se toda vez que produzir conteúdo, uma influenciadora aparecer “perfeita”, diversas pessoas irão se inspirar nela e buscarão pelo mesmo objetivo, por essa “perfeição”. Dessa forma, as pessoas nunca estarão satisfeitas, pois esse é um padrão que não existe e, nisso, muitos correm risco de vida ao tentarem alcançar tais objetivos. 

Conecta: Você acha que a sociedade e a mídia influenciam a percepção do corpo e a relação das pessoas com a comida?

T.M: Com certeza. Os jovens são muito influenciados pelas mídias. E essa influência afeta pessoas até os 35 anos, mais ou menos. Ela pode ser tanto para coisas boas quanto para coisas ruins. Existem coisas que, se não víssemos, não iríamos desejar: se não existisse a internet, talvez eu não teria o visual que tenho, não me vestiria como me visto, por exemplo.  Desejamos coisas que não são nossas vontades genuínas. Mas, em contrapartida, do mesmo jeito que podemos ser influenciados por padrões, podemos ser influenciados a nos amar mais.

“Podemos ser influenciados por padrões, mas também a nos amar mais”

Conecta: Como o movimento Body Positive pode alcançar não só os jovens, mas as gerações X e Y?

T.M.: Nos jovens, o Body Positive é penetrável, pois eles são muito influenciados pelo que veem na internet. Por outro lado,  eu acho mais difícil uma pessoa mais velha ser influenciada dessa forma. As pessoas mais vividas já sofreram muito pelos padrões antiquados impostos pela sociedade. Ações e campanhas de mídia e internet não as alcançam. Essas são as mesmas pessoas  que, quando procuram um médico, já estão desacreditadas e continuam assim. Então, para atingir pessoas mais velhas, creio que precisaria ser algo mais delicado. Atingir esse público não pode ser através de algo tão superficial.


“Quando atendo pessoas de idades diferentes,
uso linguagens diferentes, mas a mensagem é a mesma”

Conecta: Quais mudanças positivas você espera ver na abordagem da sociedade em relação aos transtornos alimentares?

T.M: Criação de campanhas motivacionais. Precisamos da desconstrução do padrão “perfeito”. A ideia de acolher corpos, a naturalidade, deixa a gente mais à vontade, como tem sido atualmente em desfiles ou revistas com pessoas comuns. Outra forma de abordagem seria, também, pelas novelas, considerando que são mais assistidas pelo público mais velho.